O Que Pode e Deve Ser Mudado - Claudio Zanatta

Claudio Zanatta
Pesquisador e Palestrante Espírita
O Que Pode e Deve Ser Mudado
Quem nunca se encantou com o último livro do Pentateuco de Kardec, editado em janeiro de 1868? ?A Gênese? está repleta de hosanas à perfeição da obra divina.
Na verdade, o título das traduções está abreviado. Conforme consta nas edições francesas, a obra foi denominada ?A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo?.
Ninguém melhor do que o Codificador para nos esclarecer sobre o objetivo da obra. Logo no primeiro parágrafo da Introdução, ele ressalta: ?Esta obra é mais um passo adiante nas conseqüências e aplicações do Espiritismo. Como seu título indica, ela tem por objetivo o estudo de três pontos diferentemente interpretados e comentados até o presente ? a Gênese, os Milagres e as Predições, nas suas relações com as novas leis que emanam das observações dos fenômenos espíritas?.
As novas leis, a que se refere Allan Kardec, foram apresentadas pelos espíritos em diversas seções mediúnicas e examinadas por cientistas e estudiosos respeitáveis. Essas são as leis imutáveis e eternas, criadas por Deus desde todo o sempre.
O Codificador esclarece: ?Dois elementos, ou se quiserem, duas forças regem o Universo: o elemento espiritual e o elemento material; da ação simultânea desses dois princípios nascem os fenômenos especiais?.
Segundo Kardec, o Espiritismo demonstra a existência do mundo espiritual e suas relações com o mundo material, ?dá a solução de uma infinidade de fenômenos incompreendidos e considerados, por isso mesmo, como inadmissíveis por uma certa classe de pensadores.(...) A solução está na ação recíproca do espírito e da matéria?.
Aí está, caro leitor, a base de toda a obra, iniciada com um capítulo elucidativo, no qual o professor Rivail fundamenta os princípios e condições que caracterizaram a recepção, análise e incorporação à Doutrina dos ensinos transmitidos pelos espíritos.
Ao longo dos capítulos seguintes, o Codificador encadeia os diversos assuntos, iniciando pela Gênese, a partir do estudo de Deus, passando à questão do bem e do mal, do papel da Ciência na Gênese, dos sistemas criados para explicar o mundo, da criação e composição do Universo, da história geológica da Terra e evolução das espécies, das teorias sobre a sua formação, da origem e natureza dos espíritos.
Encerra a primeira parte comparando os conhecimentos de sua época com a cosmogonia mosaica, que é a gênese antiga mais difundida no Ocidente.
A partir do capítulo XIII, Kardec analisa com critério o sempre controverso tema dos milagres para estudar, em seguida, a natureza e a forma de atuação dos fluidos. No capítulo XV, trata dos milagres do Evangelho à luz dos novos conhecimentos científicos.
Kardec analisa a presciência nos capítulos XVI e XVII, ou seja, a capacidade que alguns têm de antever o futuro.
No último capítulo do livro, o Codificador trata dos avanços previstos para a Humanidade e, em particular, do futuro da Doutrina Espírita, com base nas previsões evangélicas.
O Codificador demonstra, ao longo da obra, domínio, isenção e equilíbrio no trato de ciências como a Astronomia, Química, Geologia e Biologia.
Na época de Kardec, especulava-se muito sobre a geração espontânea ou biogênese. Alguns argumentavam que os seres vivos mais rudimentares surgiriam espontaneamente da matéria orgânica em putrefação. Os partidários da biogênese contestavam, afirmando que todos ser vivo procede sempre de outro ser vivo. Eram dúvidas que ainda mobilizavam a comunidade científica do século XIX.
Nem de longe se tinha a pálida idéia, por exemplo, da incrível complexidade da membrana, do citoplasma, do núcleo e dos orgânulos celulares, o que só foi possível saber com o advento do poderoso microscópio de varredura eletrônica, na década de 40, do nosso século.
Em relação ao Universo, achava-se que era estático e que nossa galáxia possuiria, no máximo, 60 milhões de astros ? número que atualmente se elevou a 400 bilhões, somente na nossa humilde Via Láctea.
?A Gênese? completou 140 anos de publicação no ano passado. Depois de tanto tempo, o conhecimento científico avançou em escala exponencial. O espírito Áureo, no livro ?Universo e Vida?, prevê que a Ciência atingirá, no próximo século, culminâncias jamais imaginadas.
As antigas dúvidas foram, em parte resolvidas e avançamos, céleres, em três grandes vertentes; a revolução quântica, que desvenda os últimos segredos do átomo; a revolução biomolecular, que devassa o código genético de todas as espécies (o DNA); e a revolução na telemática, que vislumbra avanços nunca antes imaginados nas telecomunicações e no poder de processamento dos computadores.
Assim, é natural que, após tanto tempo, os conhecimentos científicos contidos em ?A Gênese?, principalmente em relação aos temas controversos, requeiram alguns complementos, a fim de que a obra se mantenha atualizada, em consonância com os tempos que correm.
Vamos retornar à Introdução de ?A Gênese?: ?Os mesmos escrúpulos presidiram a redação das nossas outras obras, que nós podemos, verdadeiramente, dizê-las segundo o Espiritismo, porque estávamos certos da sua conformidade com o ensino geral dos espíritos. O mesmo ocorre com esta, que podemos, com razões idênticas, das como complemento das precedentes, com exceção de algumas teorias ainda hipotéticas, que tivemos o cuidado de indicar como tais, e que devem ser consideradas como opiniões pessoais, até que tenham sido confirmadas ou contestadas, a fim de não fazer pesar a responsabilidade delas sobre a Doutrina?.
Kardec, cuidadoso e detalhista, volta à questão no capítulo I, tão certo estava da obsolescência das teorias humanas, fruto do avanço inexorável do conhecimento científico. Ele afirma: ?O Espiritismo, assim, só estabelece como princípio absoluto o que se acha demonstrado como evidência, ou o que resulta logicamente da observação. Relacionando-se com todos os ramos da organização social, aos quais dá o apoio das suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, seja de que ordem forem, chegadas ao estado de verdades práticas e saídas do domínio da utopia, sem o que o Espiritismo se suicidaria.
?Deixando de ser o que é, trairia a sua origem e o seu fim providencial. Caminhando com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se as novas descobertas lhe demonstrassem que está errado em um determinado ponto, ele se modificaria com relação a esse ponto. Se uma nova verdade se revelar, ele a aceitará?.
Atento também ao dinamismo da linguagem, Kardec fez uma advertência no item 3 do capítulo XXIII do ?Evangelho Segundo o Espiritismo?: ?Na mesma língua, algumas palavras perdem seu valor com o correr dos séculos. Por isso é que uma tradução rigorosamente literal nem sempre exprime perfeitamente o pensamento e que, para manter a exatidão, se tem às vezes de empregar, não termos correspondentes, mas outros equivalentes, ou perífrases?.
É assim que vemos a linguagem do início do século já bastante defasada da que fazemos uso atualmente. Com certeza, em meados do século XXI, muitas mudanças ocorrerão. Nas traduções de ?A Gênese? para a Língua Portuguesa, também observamos esse fenômeno, seja pela inexistência, na época, de alguns vocábulos utilizados nos dias de hoje, seja pela inadequação do estilo da linguagem à comunicação escrita atual.
Assim, por exemplo, vemos no capítulo VI a referência às distâncias astronômicas em léguas, uma medida de distância não mais utilizada. Do mesmo modo, sentimos a falta do vocábulo galáxia em alusão às cidades estelares, como a nossa Via Láctea.
Esses aspectos levam-me a concluir pela necessidade de uma revisão da obra, em três frentes, a saber:
1 ? Complementação dos conceitos científicos apresentados, através de notas de rodapé, mantendo-se a integridade do texto original;
2 ? Adequação do estilo da linguagem e dos vocábulos à nossa realidade atual. Os vocábulos substituídos serão preservados em notas de rodapé, onde se explicará o motivo da substituição;
3 ? Inclusão de figuras e fotografias.
Afora a substituição de alguns poucos vocábulos, a obra em si foi mantida na forma original, intocada, principalmente no que se refere ao conhecimento doutrinário.
O objetivo maior da revisão foi o de dar um sopro vivificante e renovador no conteúdo de ?A Gênese?, corroborando inclusive o que previra o Codificador, uma vez que os novos conhecimentos, fruto das pesquisas científicas, confirma tudo o que os espíritos revelaram e continuam revelando através de extensa literatura espírita atualmente disponível.
Claudio Zanatta - Pesquisador
(Artigo retirado da Revista Estudos Espíritas ? Março/1999 ? Edições Léon Denis)
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